
Democracia, soberania, ensino e produção de pesquisa na universidade estiveram no centro do debate realizado durante a edição do projeto “Conversa Redonda com Macaxeira e Café”, no dia 26 de setembro (sábado). Com o tema “Filosofia, ciência e ética: pensar a vida e o Brasil para além do capital”, a atividade ocorreu no auditório professor Osvaldo Coelho, na Sede da ADUA, no campus universitário de Manaus.
O encontro contou com a participação dos professores Verrah Chamma, Marcelo Seráfico e José Alcimar de Oliveira, docentes do Instituto de Filosofia, Ciências Humanas e Sociais (IFCHS/UFAM). A atividade promoveu um diálogo com docentes da UFAM e da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), além de discentes das graduações em Filosofia e Ciências Sociais da UFAM.

A professora Verrah Chamma apresentou uma análise crítica sobre os fundamentos históricos da democracia representativa e da soberania, ressaltando que esses dois conceitos têm origens distintas. “O que nós temos hoje é uma combinação e uma qualificação recente que se consolida a partir da segunda metade do século XIX, impulsionada pela organização dos movimentos operários”.
No debate sobre a crescente “judicialização da vida”, a docente defendeu que regimentos, resoluções e leis ordinárias devem estar permanentemente submetidos aos direitos e garantias fundamentais previstos na Constituição. Como sugestão de leitura, indicou o livro “A esquerda que não tem medo de dizer seu nome”, de Vladimir Safatle. “É um livro curto que expõe as dificuldades da esquerda brasileira em se assumir como tal para encampar um projeto real de redução das desigualdades”, explica.
O professor José Alcimar de Oliveira resgatou a juventude de Karl Marx, destacando que, já aos 19 anos, o pensador apontava a impossibilidade de compreender a ciência sem a contribuição da filosofia. Alcimar direcionou críticas ao produtivismo acadêmico contemporâneo, cunhando o termo “Lattescracia” para denunciar a busca frenética por métricas de impacto. “O professor acaba perguntando ao Lattes: ‘Existe alguém mais produtivo do que eu?’”.
O docente criticou a assimilação de discursos neoliberais baseados no “empreendedorismo” e na “autogestão”, citando os motoristas de aplicativos como exemplo de trabalhadores que creem ser os “próprios patrões”, mas enfrentam jornadas exaustivas e insegurança trabalhista. Como referência bibliográfica, defendeu o resgate da tradição filosófica e indicou a leitura de “A ciência como vocação”, de Max Weber.
Em sua participação, o professor Marcelo Seráfico ressaltou a responsabilidade ética e política do fazer científico, pontuando que o papel do docente está indissociável de sua condição de cidadão. “A gente não pode desconectar o lugar em que a gente trabalha dos grandes processos que afetam a nossa vida”, afirmou.
Seráfico criticou a hiperespecialização precoce nas graduações e pós-graduações, defendendo que a universidade pública seja financiada para servir à sociedade e à classe trabalhadora, e não a interesses corporativos. Alertou também sobre a cooptação da academia pelas dinâmicas do mercado. “A universidade deveria estar discutindo o que é o empreendedorismo, mas está estimulando o empreendedorismo. Deveria analisar as implicações da inteligência artificial para a vida social, mas estimula o seu uso acrítico. Ela se ajustou a tal ponto à ordem que já não consegue mais olhar criticamente para essa ordem”.
Como leituras fundamentais para compreender o país, o docente recomendou as obras Brasil: A construção interrompida, de Celso Furtado, e O declínio do Brasil-nação, de Octavio Ianni.

Projeto
Segundo o professor José Alcimar, a iniciativa do projeto “Conversa Redonda com Macaxeira e Café” é fortalecer o debate político e filosófico no espaço acadêmico.
“Conversa Redonda é um espaço para afirmar a natureza pública da razão, notadamente numa quadra histórica de retração das lutas coletivas e do avanço do individualismo, reforçado pelo discurso ideológico da meritocracia. Promover de forma dialética as relações entre Filosofia, Ciência e Ética significa mobilizar as armas da crítica para conter e superar a crítica das armas, sobretudo nesses tempos de obscurantismo cognitivo, de afronta à cultura, de ódio ao pensamento, de criminalização da política, de falsificação da história e de destruição da memória”, explica o docente.


O evento foi aberto à comunidade e contou com emissão de certificados. A próxima edição será divulgada em breve.
Fonte: ADUA
Fotos: Sue Anne Cursino/ Ascom ADUA
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