Foto: Eline Luz/ANDES-SN

Daisy Melo
A poesia cantada do artista maranhense João do Vale (1934–1996) tomou conta do auditório do Centro Pedagógico Paulo Freire, na Universidade Federal do Maranhão (UFMA), palco do 69º Conselho do ANDES-SN (Conad), realizado de 03 a 05 de julho em São Luís. Iniciada com a emblemática canção “Pisa na Fulô”, a apresentação de trecho do espetáculo “João do Vale, o gênio improvável” foi protagonizada pelo cantor, compositor, produtor cultural e ator Vicente Melo, que encantou as(os) presentes.
Durante sua apresentação na abertura do Conad, Vicente Melo interpretou as músicas “Minha História”, “Todos Cantam sua Terra”, “Matuto Transviado”, “Coronê Antonio Bento” e “Carcará”, todas compostas pelo “Poeta do Povo”. João do Vale ganhou destaque no cenário nacional por retratar por meio da arte a realidade social e cultural nordestina, misturando em sua musicalidade ritmos como forró, baião e bumba meu boi.
O musical “João do Vale, o gênio improvável”, protagonizado por Vicente Melo, teve estreia em 2017 no Teatro Arthur Azevedo, em São Luís. Com temporadas até 2021, passou por teatros e praças públicas de diversas cidades do Maranhão e de Teresina (PI), sendo prestigiado por um público de cerca de 35 mil pessoas. O espetáculo marca a estreia no teatro profissional de Vicente Melo, 49 anos, que há mais de 20 anos atua no ramo musical.
“As minhas influências são basicamente Luiz Gonzaga, Raimundo Fagner, muitos sambistas - como a ‘Marrom’ [como é conhecida a cantora maranhense Alcione] - e o próprio João do Vale, que é uma personalidade, um artista negro emblemático que marcou muito a história da musicalidade maranhense”, comenta Vicente Melo, que acrescenta: “a arte que vigora em mim é a que eu faço na vida”.
A arte entrou na trajetória de Vicente Melo através de convite das quadrilhas juninas. “Acabei me destacando. Aos poucos começaram os convites para composições e alguns grupos começaram a gravar minhas músicas. Nessa época, eu via o teatro como algo distante, não era algo que imaginaria fazer”, conta.
Além de ter dezenas de músicas gravadas por artistas maranhenses, Vicente também conta com passagem pelo cinema. Ele atuou em filmes como “O miolo da história”; “Antes de Partir”, “De repente Drag” e “Mensagem no Funeral”. Também participou da série “Guajuru”, do curta metragem “História de Menino Grande”, do filme musical “Cadê Juvenal” e do documentário “A Balaiada”, com estreia prevista para 2027.
Também esteve entre as apresentações artísticas do 69º Conad o “Clube do Chico”, com Marconi Rezende e Fleming Sandes; “Poetizando em tempos de greve”, com L. Angel, nome artístico do professor da UFMA, Domício Maciel, do Coletivo de Escritores Maranhenses (CEM); e Mestra Roxa e as Caixeiras do Divino.
Quem foi João do Vale?
Foto: Reprodução capa do disco "João do Vale"

“Seu moço, quer saber, eu vou cantar num baião.
Minha história pra o senhor, seu moço, preste atenção”
(Minha História, João do Vale)
João do Vale foi um músico, cantor e compositor nascido em Pedreiras, município a 245 quilômetros de São Luís, no Maranhão. Em 1947, mudou-se para a capital do estado, onde compôs músicas para o grupo de Bumba Meu Boi “Linda Noite”. De lá passou por Teresina e, em 1950, chegou ao Rio de Janeiro, onde trabalhava como ajudante de pedreiro e ao mesmo tempo compunha e cantava.
Conhecido como “Poeta do Povo,” João – homem negro, pobre, nordestino e analfabeto – ganhou reconhecimento nacional na Cidade Maravilhosa com suas composições de forte discurso social e cultural que retratam a realidade nordestina e as lutas populares. Suas músicas chegaram a ser gravadas por artistas da Música Popular Brasileira (MPB) como Maria Bethânia, Luiz Gonzaga, Chico Buarque, Luiz Vieira e Dolores Duran, e ainda a compor trilhas para o cinema.
O cantor maranhense ficou amplamente conhecido ao participar do histórico espetáculo “Opinião”, em 1964, dividindo o palco com o sambista Zé Keti, a cantora Nara Leão e, na segunda versão do show, com Maria Bethânia. Dirigido por Augusto Boal, com texto de Oduvaldo Vianna Filho, Armando Costa e Paulo Pontes, e produção do Teatro Arena e do Centro Popular da União Nacional dos Estudantes (UNE), o espetáculo teatral e musical é considerado a primeira grande resposta artística contra o Golpe Militar.
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