Foto: Divulagação/Movimento de Mulheres Olga Benário Amazonas
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Daisy Melo
O Movimento de Mulheres Olga Benário/Amazonas realizou, na madrugada do dia 18 de julho, a ocupação de um terreno, na zona sul de Manaus, destinado à construção da Casa da Mulher Brasileira, com o objetivo de denunciar a paralisação das obras, iniciadas em maio de 2024. A ADUA manifestou apoio à primeira ocupação de mulheres da cidade, “Dora Priante”, organizada pela Rede de Acolhimento Manuella Otto. Com investimento do governo federal de quase R$ 13 milhões, o espaço deveria ter sido construído para acolher mulheres vítimas de violência doméstica e familiar.
“A ADUA se solidariza com ações como esta, porque o enfrentamento à violência contra as mulheres não é apenas uma pauta individual, mas uma responsabilidade coletiva e social. Quando nos posicionamos em defesa de iniciativas de acolhimento, proteção e orientação, fortalecemos a dignidade humana, a justiça social e o direito das trabalhadoras a viverem sem medo”, afirmou a presidente da ADUA, Ana Lúcia Gomes.
A Casa da Mulher Brasileira em Manaus seria a primeira do Amazonas. “A obra está parada, e a previsão de entrega era no início do ano passado. No terreno, hoje, há a base da construção, com as colunas do que seria a Casa da Mulher Brasileira. Nós ocupamos uma casa, dentro do terreno, que tem banheiros, dormitório e cozinha, e que servia de base para os trabalhadores que atuavam na obra”, explica a militante do Movimento de Mulheres Olga Benário/Amazonas e estudante de pós-graduação, Ana Roque.
Foto: Daisy Melo/Ascom ADUA

No Brasil, há unidades em funcionamento da Casa da Mulher Brasileira em São Paulo (SP), Brasília (DF), Salvador (BA), Campo Grande (MS), Curitiba (PR), Fortaleza (CE), São Luís (MA) e Boa Vista (RR). Os espaços reúnem serviços como acolhimento e triagem; delegacia especializada; Defensoria Pública e Ministério Público; Juizado para violência doméstica; apoio psicossocial; alojamento de passagem e capacitação para autonomia financeira.
De janeiro a maio deste ano, nove mulheres foram vítimas de feminicídio no Amazonas, e 8 mil pedidos de medidas protetivas foram registrados no Estado, conforme dados da Polícia Civil e do Instituto Médico Legal, que não consideram as subnotificações. No Brasil, foram contabilizados 1.568 feminicídios em 2025, alta de 4,7% em relação ao ano anterior, de acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
A presidente da ADUA frisa que o apoio da Seção Sindical reafirma o compromisso da entidade com a valorização da vida, a equidade de gênero e a construção de ambientes mais seguros e humanos. “As estatísticas mostram que a violência contra as mulheres não afeta a todas da mesma forma, mas envolve desigualdade de gênero, raça e classe social. Os números alarmantes reforçam a necessidade de ampliar a rede de proteção, fortalecer a denúncia e, principalmente, garantir atendimento humanizado em defesa da vida, da dignidade e da segurança das mulheres, com medidas de enfrentamento, acolhimento e punição aos agressores”.
Foto: Daisy Melo/Ascom ADUA

A Diretoria da ADUA (gestão 2024-2026) publicou, no dia 23 de julho, uma nota de apoio e solidariedade à ocupação "Dora Priante”, em que afirma que “toda forma de violência deve ser repudiada. A política existe para que não cedamos à violência como forma de resolver conflitos. Quando a violência é perpetrada por homens contra mulheres, torna-se imprescindível um posicionamento firme e categórico de repúdio”. No dia 28 de julho, a ADUA visitou a primeira ocupação de mulheres de Manaus, em apoio à luta do movimento de mulheres, ocasião em que entregou doações.
Ocupação “Dora Priante”
A ocupação “Dora Priante” homenageia a líder comunitária sequestrada e assassinada em agosto de 2015, no município de Iranduba, na Região Metropolitana de Manaus. Conforme reportagem da Amazônia Real, Maria das Dores Salvador Priante era líder da comunidade Portelinha e foi vítima da omissão do Estado do Amazonas, que ignorou os pedidos de proteção diante das ameaças que sofria por sua luta contra a venda ilegal de terras. O corpo da ativista foi encontrado em um ramal da rodovia AM-070, com marcas de tortura e tiros de arma de fogo.
Após a ocupação, o Movimento de Mulheres Olga Benário do Amazonas está recebendo doações e contribuições para a casa. Entre os itens solicitados estão alimentos, água mineral, lençóis, cadeiras, ventiladores, colchonetes e produtos de higiene e limpeza. Doações em dinheiro também podem ser feitas via PIX redemanuellaotto@gmail.com.
Desde o início da ocupação, o movimento tem realizado um trabalho político-social. No local, já ocorreram algumas atividades como treino de boxe da Academia Popular Teófilo Stevenson, arraial em comemoração aos 15 anos do Movimento de Mulheres Olga Benário e o “Grafitasso das Minas”. Estão previstos para o mês de agosto a realização do Dia do Circo, com atividades para as crianças da comunidade, no dia 08, e o Encontro do Clube do Livro do Movimento, com a leitura da obra “Persépolis”, no dia 22.
Responsabilização
O movimento realizou, no dia 21 de julho, o ato “Onde está a Casa da Mulher Brasileira?”, em frente à sede da Secretaria de Estado de Justiça, Direitos Humanos e Cidadania (Sejusc), para exigir diálogo e cobrar respostas às demandas das mulheres de Manaus. Como resultado, o movimento obteve o agendamento de uma reunião com a titular da Sejusc, ocorrida no dia 28 de julho. “Esse foi apenas o primeiro passo. Já ficou encaminhada a realização de uma nova reunião para aprofundar as demandas apresentadas e construir os próximos passos. Seguimos firmes, porque enfrentar a violência contra as mulheres exige organização, diálogo e políticas públicas”, afirma o grupo.
Foto: Daisy Melo/Ascom ADUA

A Sejusc e a Caixa Econômica Federal foram acionadas, em julho deste ano, pelo Ministério Público Federal (MPF), que expediu um despacho cobrando providências imediatas para a retomada das obras da Casa da Mulher Brasileira de Manaus. O órgão deu prazo de dez dias para a apresentação de um cronograma para as obras, 45 dias para a retomada da construção e de, no máximo, um ano para a conclusão. A ação movida pelo MPF cobra a responsabilização da União e do Estado por omissão ilícita e prolongada na implantação do projeto.
Caso os prazos sejam descumpridos, o MPF pode adotar medidas judiciais, como a solicitação do aumento da multa diária de R$ 100 mil determinada pela Justiça e o encaminhamento do caso para a via criminal com o objetivo de verificação de eventual crime de desobediência dos responsáveis pela implementação do projeto.
Foto: Divulagação/Movimento de Mulheres Olga Benário Amazonas

Movimento Olga Benário
Em 15 anos de existência, o Movimento de Mulheres Olga Benário já realizou cerca de 30 ocupações. No Amazonas, a entidade atua há dois anos. “A ocupação é uma forma de denunciar essa violência, que é colocar a especulação imobiliária acima da vida das mulheres. Nossa ideia é transformar o imóvel ocupado em uma casa de referência para o acolhimento de mulheres vítimas de violência”, afirma Ana Roque.
O Movimento de Mulheres Olga Benário atua nacionalmente tanto nas casas de referência quanto nas unidades da Casa da Mulher Brasileira espalhadas pelo país. “É realizada a primeira escuta, momento em que as vítimas recebem orientação sobre como proceder, inclusive juridicamente. Aqui em Manaus, esse trabalho já é feito por advogadas voluntárias por meio da Rede de Acolhimento Manuella Otto”, explica a militante.
O “Olga Benário” possui, em diferentes partes do país, casas de referência para o acolhimento de vítimas de violência, que também funcionam como espaços de formação política e cultural. A Casa “Tina Martins”, em Belo Horizonte (MG), foi a primeira ocupação de mulheres da América Latina. Na região Norte, há a Casa da Mulher Trabalhadora “Geordana Farias”, em Ananindeua, e a Ocupação de Mulheres “Rayana Alves”, em Belém, ambas no Pará.
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