
Foto: Daisy Melo - Ascom ADUA
“Se não fosse a nossa luta, talvez eu não tivesse uma casa hoje. A gente via as companheiras no filme e lembrava que nossa vitória veio de anos indo pra rua”, disse, emocionada, Michele dos Santos, ao contar sobre sua vivência na luta por moradia, durante sua participação no projeto Cinema em Debate na ADUA, realizado no auditório Professor Osvaldo Coelho, na sede da Seção Sindical, nesta quinta-feira (30 de julho).
A atividade exibiu os episódios Maria da Torre, Maria das Luzes e Maria das Tribos, que fazem parte do documentário Gleba - Chão de Marias, produzidos em 2018, para retratar a saga de pessoas que vivenciaram ocupações urbanas e a constante ameaça de despejo em Manaus.
A programação também promoveu um encontro entre a premiada cineasta amazonense Christiane Garcia e integrantes do Movimento de Luta dos Trabalhadores Independentes (MLTI), entidade que atua há 26 anos na capital.
Para as moradoras e moradores do Nova Vitória presentes na sessão, a tela espelhou suas próprias trajetórias. “Nós vivemos ali com escopeta na cabeça, com a polícia mandando a gente sair. Não foi fácil não, nós ficando de rosto preto de tanto estar no sol, mas foi por necessidade, a gente não tinha dinheiro pra pagar aluguel”, pontuou dona Dulciclea Trindade, de 63 anos, ao contar sobre a memória sobre a violência policial vivenciada em períodos de ocupações no bairro Nova Vitória. Ela relembrou que a conquista da casa própria custou anos de enfrentamento e exposição ao perigo. “Eu me emocionei. Passou um filme na minha cabeça, porque foi o que nós vivemos. Hoje eu tenho minha casinha e luto agora para meu filho ter onde morar”, disse.

Foto: Daisy Melo - Ascom ADUA
A dimensão histórica e geracional dessa resistência também atravessou o depoimento de Ione Silva. Beneficiada recentemente com uma unidade no Residencial Morar Melhor pelo programa Minha Casa, Minha Vida, ela enxergou no documentário a continuidade de uma história que começou na sua infância, quando seu avô, Ângelo Marinho, lutou pela ocupação que deu origem ao bairro Compensa. “Eu passei por isso várias vezes na minha infância, de não ter moradia. Nós viemos do interior, migrando, aí nós chegamos aqui na cidade e encontramos uma área de mata, que é a Compensa agora. E lá foi travado uma luta, bruta mesmo. O meu avô bravamente lutou naquela terra e hoje em dia aquela terra resiste. O nome dele é Ângelo Marinho e eu tenho muito orgulho dele. Quando eu vejo aquele ônibus, 121 - Vila Marinho, eu só lembro dele. Aí eu vendo o filme, e relembro que eu fui criada nesse ritmo de ocupação. Hoje em dia eu tenho a minha casa devido a muita luta que eu sou integrante do MLTI”, relatou.

Foto: Daisy Melo - Ascom ADUA
O militante Silvio Junior reafirmou a veracidade das cenas exibidas no documentário: “O que foi mostrado é o sofrimento que a gente viveu. Eu sei a tristeza de cada pai, de cada mãe e das crianças lutando pela moradia”. Júlio Cesar, coordenador do MLTI, reforçou a importância do registro para combater o estigma imposto pela grande imprensa: “Esse documentário mostra a verdade sobre a vida dos sem-teto. A imprensa tradicional nos criminaliza, só nos chama de ‘invasores’ e ‘bandidos’”.

Foto: Daisy Melo - Ascom ADUA
Incomodada justamente por essa abordagem midiática hegemônica durante a reintegração de posse na comunidade Cidade das Luzes, em 2015, a cineasta amazonense Christiane Garcia idealizou a obra para humanizar os dados estatísticos. “As notícias traziam sempre os termos ‘invasores’ ou ‘bloqueio’, e aquilo me incomodou. Eu me perguntava: quem são essas pessoas? Quem são essas famílias? Para onde essas pessoas vão?”, explicou a cineasta sobre a ideia de fazer o documentário.

Natural de Maués (AM), Christiane Garcia possui uma carreira premiada em curtas e longas-metragens. Sua produção audiovisual mais recente é o longa Enquanto o Céu Não Me Espera, exibido em salas de cinema no Brasil e no exterior. - Foto: Daisy Melo - Ascom ADUA
Mais do que registrar a destruição de estruturas casas nas ocupações, a diretora buscou capturar a dimensão emocional das pessoas que estavam vivendo aquela situação. “O documentário não explica. Ele não tem um propósito de ficar explicando. Ele mostra entrevistas com pessoas para que elas possam contar suas histórias. E assim eu queria que as pessoas que o assistissem pudessem sentir. Eu queria que fosse visto mais do que apenas paredes sendo derrubadas, eu queria que fosse visto o sentimento que existe ali”.
Ao final do bate-papo, Christiane provocou o público a se apropriarem da produção audiovisual como instrumento político: “O audiovisual é uma linguagem e está à disposição como ferramenta para todo mundo, para todas as pessoas que precisam dessa ferramenta para se comunicar. Esse material está à disposição para vocês, que também podem contar a história de uma vitória, de ocupação, a história pessoal de cada um, a luta. Hoje o audiovisual não precisa ser feito só por quem acha que domina essa linguagem mais artística. Então vocês têm o audiovisual também à disposição de vocês”.
Sob a perspectiva acadêmica e política, o professor Tomzé, coordenador do Cinema em Debate, contextualizou que a crise habitacional reflete uma falha estrutural do Estado brasileiro na garantia dos direitos fundamentais previstos na Constituição Federal. “Esse é um problema que não é só de Manaus. A gente sabe exatamente a dificuldade de encontrar um espaço pra morar dignamente. Nós temos uma ausência de uma política que garanta o que está na Constituição, que são as condições de moradia das pessoas”, analisou.
Tomzé ressaltou ainda o papel das entidades sindicais e da universidade pública em se somar a essa pauta: “A luta por moradia também é uma pauta defendida pelo nosso sindicato, o ANDES-SN e a ADUA. A gente vê que universidade como uma entidade tem que estar ligada aos problemas da cidade, aos problemas da sociedade. Então, por essa razão, a gente também tem dentro do nosso sindicato uma luta a favor que esses direitos sejam garantidos”, frisou.
Acolhimento às famílias
Reconhecendo que a participação política dos movimentos populares se dá de forma comunitária e familiar, a organização da ADUA estruturou um espaço infantil dedicado aos filhos e filhas dos participantes. Enquanto os adultos debatiam no auditório, as crianças contaram com uma programação acolhedora com atividades de desenho, massinha de modelar e lanche, garantindo a integração de todas as gerações na atividade.

Crianças brincam na sede da ADUA - Foto: Sue Anne Cursino/ Ascom ADUA
Na Tela
O documentário Gleba - Chão de Marias foi produzido em 2018, pela Olha Já Filmes, com direção de Christiane Garcia, direção de fotografia de Paulo Freire e Lucio Silva, produção de Luiz Pinheiro e som direto de Heverson Batista (Batata).
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O conteúdo dos episódios exibidos expõe a resistência no cotidiano das ocupações urbanas de Manaus. As cenas mostram desde os saberes indígenas e a forte presença feminina até a extrema precariedade de infraestrutura, como a escassez de água encanada, luz elétrica etc. A produção registra a violência das reintegrações de posse, marcadas pelo desespero de famílias diante de bombas de gás, tiros e escavadeiras destruindo moradias, ao mesmo tempo em que destaca a capacidade de organização comunitária e negociações com a Defensoria Pública e o Ministério Público da União (MPU).
O documentário também escancara os dramas vividos após os despejos e as marcas psicológicas que atravessam gerações. Cenas de celebração simples, como um aniversário infantil, contrastam com a ameaça constante de novas remoções para famílias que ocupam um prédio no Centro de Manaus ou em terreno na periferia da cidade. Esse trauma permanente se reflete na fala de uma criança moradora da ocupação, que delineia uma das narrativas e desabafa sobre o pavor de uma nova ação policial no local.
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