
Imagem: Print de vídeo/ Divulgação
Na tarde de terça-feira (5 de maio), no Instituto de Filosofia Ciências Humanas e Sociais (IFCHS), Setor Norte da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), estudantes e o professor do Departamento de Ciências Sociais, Luiz Antonio Nascimento de Souza, enfrentaram um grupo de pessoas ligadas ao Partido Liberal (PL), entre elas um vereador de Manaus e Coronel da Polícia Militar.
Em vídeos divulgados nas redes sociais é possível ver que o vereador adotou uma postura intimidatória contra o professor Luiz Antonio, que reagiu pedindo respeito e exigindo que o parlamentar interrompesse os gestos agressivos. Imagens mostram o vereador apontando o dedo na cara do docente e gritando ofensas. Os e as estudantes aparecem gritando em coro “recua” e o grupo de extrema direita acabou deixando o campus.
Uma reunião de docentes da Ufam foi convocada para esta quinta-feira (07 de maio), às 11h, na cantina do IFCHS, para tratar das invasões de grupos da extrema direita no campus da universidade. A ADUA irá participar. Em nota pública de repúdio à invasão na Ufam e em solidariedade ao professor Luiz Antonio, a Seção Sindical afirma: “Nossa Seção Sindical vem publicamente, e de forma a mais veemente, rechaçar o ato inominável, intimidatório, de invasão do espaço da Universidade Pública e atentatório contra o direito constitucional de expressão política, como já ocorrera na semana anterior, no mesmo espaço, em que um séquito de intolerantes fizera o mesmo contra Centros Acadêmicos e divulgado em forma de propaganda midiática, o que está a exigir medidas legais, institucionais e preventivas por parte das instâncias superiores da UFAM”.
Em depoimento à ADUA, o docente disse que o grupo chegou ameaçando os e as estudantes, demonstrando disposição para agressões. “Não me coube outra atitude senão sair em defesa da universidade e dos estudantes, sempre lembrando a eles que aquele não é um espaço de violência ou confronto físico, mas sim de confronto de ideias”, afirmou.
De acordo com depoimentos de estudantes, o grupo havia se dirigido à universidade para confrontar os dizeres dos cartazes afixados nos corredores do IFCHS, com o objetivo de repetir a destruição ocorrida no dia 25 de abril (sábado). Naquela ocasião, um grupo entrou na instituição e rasgou cartazes que traziam mensagens como:“Nenhuma a menos! Parem de nos matar”, “Por uma UFAM antirracista”, “Diversidade não é discurso, é compromisso”, “Estudar é um direito de todos” e “Não à privatização da UFAM”, além de frases em defesa do povo palestino.
Em resposta ao fato ocorrido de 25 de abril, representantes estudantis criaram um Grupo de Trabalho para formalizar as denúncias. Um dossiê foi encaminhado à Ouvidoria da UFAM no dia 30 de abril, solicitando apuração dos fatos e possível acionamento do Ministério Público Federal (MPF).
jkjnjk.jpeg)
O presidente do Centro Acadêmico de Geografia e Coordenador Nacional da Juventude Manifesta, Gustavo Fernandes, afirmou que a iniciativa da produção de cartazes faz parte de ações do movimento estudantil voltadas à ocupação política da universidade. “Entendemos que a universidade pública deve ser um espaço vivo de debate, construção coletiva e expressão, e é nesse sentido que promovemos atos que articulam formação, crítica e mobilização”.
Segundo ele, os cartazes que foram rasgados pelo grupo de extrema direita expressavam críticas à precarização do ensino público, à gestão institucional e às correntes políticas consideradas autoritárias. “Produzimos não só cartazes, mas também sentidos, posicionamentos e formas de presença dentro da universidade. No entanto, a ação também foi atravessada por ataques externos. O primeiro ataque deles foi compreendido por nós como uma tentativa de setores alinhados ao fascismo de se apropriar da nossa indignação para gerar engajamento, ao mesmo tempo em que desrespeitam a autonomia dos estudantes. A maioria do grupo não era de pessoas da universidade, mas indivíduos que se deslocaram até o espaço com o objetivo de provocar, registrar e repercutir nas redes sociais, esvaziando o sentido real do ato”.
O professor Luiz Antonio afirmou que a Ufam, assim como todas as universidades federais, tem uma característica em comum, que é ser um espaço de debate franco, público e democrático, onde a pluralidade de ideias rege a vida acadêmica, inclusive por meio do contraditório que movimenta a universidade.
Já a presidente da União Estadual dos Estudantes (UEE), Thaly Duarte, declarou que o grupo chegou ao campus com postura agressiva e intenção de repetir atos anteriores. Segundo ela, a reação das(os) estudantes teve como objetivo evitar novos episódios de conflito. “Chegaram com a intenção clara de confrontar os estudantes, e o professor se aproximou para questionar o vereador sobre o motivo de suas ações, momento em que o vereador apontou o dedo no rosto do professor. Entendemos que a universidade é um espaço para debate e diálogo, mas, diante do confronto com pessoas que têm histórico de ataques à universidade pública, mantivemos nossa posição firme. Gritamos “fora, fascistas” e “recua” para que eles deixassem o local, pois estavam tentando transformar o campus em palco para promover o desmonte da universidade. O vereador foi à universidade de forma truculenta para criar esse palco e a gente não deixou. Apareceu muita gente e colocamos eles para fora, porque eles queriam mesmo fazer um novo episódio de violência contra os estudantes”.
O professor Luiz Antonio criticou a atuação do parlamentar envolvido no episódio, afirmando que o debate deveria se concentrar em questões como o transporte público para estudantes e trabalhadoras(es) e a segurança na cidade. “Ele vem dizer que vai fiscalizar a universidade? Sendo vereador, deve se colocar no seu lugar. Não tem competência institucional nem mandato para confrontar estudantes dentro da universidade, nem trabalhadores. Sou servidor público, estava no meu local de trabalho e fui confrontado de forma violenta”. O professor reafirmou ainda que a atitude do grupo remete ao fascismo, que busca silenciar estudantes e professoras(es). “Depois queimam livros, queimam professores, queimam a sociedade. Eles querem silenciar o pensamento crítico”, concluiu.
Solidariedade
Docentes sindicalizadas(os) à ADUA enviaram mensagem à entidade manifestando solidariedade ao professor Luiz Antonio. Entre eles está o sociólogo Tharcisio Cruz (IEAA), que, em texto, afirmou: “A nojenta prática da arrogância, dos que lamentavelmente ocupam cargos políticos e acreditam ser donos do país, Estado, e consciências, o que Luiz Antônio e nós em seu apoio jamais aceitaremos, podem pensar ser algo trivial agir com brutalidade ao servidor público em seu lugar de trabalho, mas reafirmo, sempre apoiaremos nossos colegas servidores, nossas colegas servidoras, pois o docente em questão, nos representa como defensores de sérios e legítimos princípios da UFAM pública e democrática”.
O docente Walmir Albuquerque Barbosa também manifestou solidariedade ao professor e às(aos) estudantes que “defenderam o sagrado espaço da Ufam”. Já a docente Jocélia Barbosa declarou: “Vamos marcar a nossa presença nesse momento de tamanha invasão na nossa casa que é a UFAM”.
Em nota, a Reitoria da UFAM manifestou repúdio aos atos de violência e às tentativas de silenciamento ocorridos no dia 5 de maio. Reiterou que o exercício profissional de suas servidoras e seus servidores deve ser preservado e respeitado e informou que as autoridades competentes serão acionadas diante de quaisquer atos que atentem contra esse direito.
|