
Foto: Daisy Melo/ Ascom ADUA
Com o objetivo de dialogar sobre violações históricas e atuais na Terra Indígena (TI) Vale do Javari, a ADUA realizou, na manhã do dia 31 de março, a roda de conversa “Ação do Fórum Amazônia por Verdade, Justiça e Reparação junto aos povos indígenas do Vale do Javari”. A atividade ocorreu no auditório Professor Osvaldo Coelho, na sede da Seção Sindical, no Setor Sul do campus da Ufam, reunindo docentes, estudantes e representantes de entidades sindicais.
A roda de conversa foi organizada pela Regional Norte do ANDES-SN I, em articulação com ADUA, Sind-UEA e apoio da Frente Amazônica de Mobilização em Defesa dos Direitos Indígenas (FAMDDI) e do Fórum Amazônia por Verdade, Justiça e Reparação. A gravação está disponível no canal da entidade no YouTube (@canaladua).
A mesa foi composta pelo coordenador do Fórum Amazônia por Verdade, Justiça e Reparação e docente da Universidade Federal do Pará (UFPA, Gilberto de Souza Marques; pela 1ª secretária da Regional Norte 1 do ANDES-SN e professora da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), Ceane Simões e o antropólogo e professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Lino João de Oliveira Neves. O encontro teve como um dos eixos centrais o compartilhamento de experiências vividas durante a Assembleia dos União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Uunivaja), realizada de 25 a 27 de março, no Centro de Treinamento Quixito – TIVJ, Atalaia do Norte (AM).
Ceane Simões iniciou sua fala destacando a complexidade logística e territorial da região amazônica, detalhando o deslocamento até o local da assembleia na TI do Vale do Javari. “Nós partimos de Manaus até Tabatinga, no meu caso no dia 23 de março, e no dia seguinte seguimos para Benjamin Constant, em um trajeto de cerca de 30 minutos de lancha. De lá, o percurso foi terrestre até Atalaia do Norte, com duração de aproximadamente uma hora e meia, e depois mais duas horas de lancha até o Centro de Treinamento Quixito”, explicou. Segundo ela, o Centro foi construído com recursos captados para formação indígena e possui estrutura para abrigar cerca de 200 pessoas, com alojamentos, auditório, refeitório e espaços interligados por pontes de madeira.

Centro de Treinamento Quixito, em Atalaia do Norte (AM) - Foto: Ceane Simões
A Terra Indígena Vale do Javari é a segunda maior Terra Indígena do Brasil, homologada pelo Governo Federal em 2 de maio de 2001, possuindo cerca de 8,544 milhões de hectares. Localiza-se no estado do Amazonas, abrangendo áreas dos municípios de Atalaia do Norte, Benjamin Constant, São Paulo de Olivença e Jutaí, na região de fronteira entre Brasil e Peru.
Segundo dados do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Vale do Javari, divulgados no site da UNIVAJA, vivem na TI aproximadamente 6.321 pessoas, falantes de duas famílias linguísticas: Pano e Katukina. “Cada um dos nossos povos tem sua própria história, seus próprios costumes e formas de resistir”, destaca a entidade. Além de sete povos (Kanamari, Korubo, Kulina, Mayuruna, Marubo, Matis e Tsohom Dyapa), há registros de 19 grupos em isolamento voluntário ou “povos livres”.
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Mapa da localização da TI Vale do Javari
Em seu relato, Ceane ressaltou que a participação dela e do professor Gilberto foi apenas como convidados, sem realizaram interferência na dinâmica da organização da Assembleia, sendo um momento de grande aprendizado. A docente informou que a assembleia na Univaja teve caráter eleitoral e reuniu representantes de diferentes povos. “Se tratava de uma assembleia eleitoral, com discussão sobre a estrutura organizativa da associação, prestação de contas e deliberações que impactam diretamente o movimento indígena”. Ela destacou ainda a centralidade da pauta discutida nesse contexto foi a defesa do território. “A principal questão tem a ver com a proteção do território, que é garantir a permanência e a vida dos povos indígenas, com ações de vigilância, treinamento de defensores e uso de tecnologias”, disse, complementando que uma importante fala dita pelos indígenas nessa atividade foi: “Nós não temos uma causa, temos uma casa. E é essa casa que a gente quer cuidar”.
Ceane também apontou as diversas ameaças enfrentadas pelas comunidades, como invasões, mineração ilegal, atuação de grupos religiosos e saída de jovens de suas comunidades.
Outro ponto destacado por Ceane foi o protagonismo das mulheres indígenas nas discussões. “Apoiar o protagonismo político das mulheres e enfrentar as violências que elas sofrem é uma pauta central que emergiu da assembleia”, afirmou. Para ela, é fundamental que universidades e movimentos sindicais se aproximem dessas pautas de forma ética e responsável, respeitando os modos próprios de organização e saberes dos povos indígenas.

Proteção do território dos povos indígenas marca a Assembleia da Univaja - Foto: Ceane Simões
A fala da docente enfatizou que essas populações enfrentam constantemente pressões em seus territórios e que o protagonismo das mulheres é fundamental, apontando para a necessidade que movimentos sociais e sindicais busquem formas de apoiá-las, já que vivem sob um sistema patriarcal, onde as lideranças são, em sua maioria, homens. Durante o encontro, houve denúncias de violência doméstica. “O fato de as mulheres pegarem o microfone para se manifestar já demonstra grande coragem e entre os pontos destacados na leitura da carta “Tecendo redes das mulheres”, estão denúncias graves e a recomendação para que não se fossem acatacadas candidaturas de homens envolvidos em casos de violência”.
Gilberto de Souza Marques trouxe uma reflexão crítica sobre o papel da universidade nesse processo de busca por verdade justiça e repração às violações da Ditadura no país. “Nós, na universidade, muitas vezes somos extremamente arrogantes. Achamos que o diploma nos dá autoridade para falar em nome dos povos, quando, na verdade, precisamos aprender com eles”, afirmou. Ele defendeu uma atuação baseada na escuta e na construção coletiva, sem substituir a voz dos povos originários.
O professor também destacou o histórico de violência enfrentado pelos povos indígenas ao longo da história. “A trajetória dos povos indígenas é marcada por genocídio e apagamento, tanto que nossos estudos geralmente se iniciam com a chegada dos invasores europeus. Embora seja uma história de violações, também é uma história de resistência. Se os povos originários permanecem, é porque resistem de diversas maneiras. Segundo ele, o papel das instituições é fortalecer essas vozes e contribuir para ampliar seu alcance. Nosso compromisso deve ser apoiar, sem falar por eles ou assumir suas vozes. Precisamos colaborar para que a voz dos povos indígenas ressoe cada vez mais longe”.
Gilberto ressaltou ainda a importância de rever a postura acadêmica diante dos saberes tradicionais. “O primeiro passo é diminuir nosso grau de arrogância e entender que temos muito a aprender com os povos indígenas, ribeirinhos e quilombolas. A universidade deve se somar a essa luta, aprendendo e contribuindo”, disse, ao defender uma atuação mais comprometida com as demandas sociais.
Debate
Na mediação do diálogo, abrindo espaço para reflexões ao longo da roda de conversa, o professor Lino João de Oliveira Neves levantou questionamentos importantes sobre o papel das instituições sindicais e acadêmicas diante das demandas dos povos indígenas.
Em sua análise, Lino ressaltou a historicidade das violações na região do Vale do Javari, destacando que “a agressão aos povos é bem anterior à ditadura”, mas que se intensificou com projetos de infraestrutura e expansão econômica na Amazônia. Entre suas afirmações, destacaram-se as frases: “Todos esses povos estão em um mesmo nível de vulnerabilidade, ameaçados concretamente” e “Só existe o Vale do Javari hoje porque a estrada não foi construída”.
Ao afirmar a urgência de ações articuladas entre universidade, movimentos sociais e organizações indígenas, Lino criticou: “A universidade não tem uma proposta indígena”.
Outras falas reforçaram a gravidade da situação no Vale do Javari. Silvio Cavuscens, do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), que também esteve na Assembleia como observador, destacou as tensões vividas em razão da falta de políticas públicas adequadas. “A gente percebeu tensões enormes porque são povos indígenas que não receberam a devida proteção do governo. Eu diria que a ciência tem que se aliar à sabedoria, aos saberes tradicionais".

Foto: Daisy Melo/ Ascom ADUA
O indigenista defende que não se provoca mudança a partir de projetos pontuais, mas sim a longo prazo, e que a universidade tem papel central nesse contexto. Ele também chamou atenção para o fato de que: “A demarcação em si não protege. As invasões ocorrem, e fazer a vigilância em áreas recortadas por rios não é um trabalho fácil. A Univaja está realizando um trabalho importante nesse sentido”, avaliou Silvio.
Participantes do público também enfatizaram a necessidade de ampliar o debate sobre os impactos da ditadura militar na Amazônia e suas consequências atuais.
O 1º tesoureiro da Regional Norte 1 do ANDES-SN, professor Tomzé Costa, destacou o papel histórico do movimento docente na apuração de violações de direitos e chamou atenção para a necessidade de maior envolvimento das universidades nessas iniciativas. “Nós, no ANDES, temos, desde 2011, uma Comissão da Verdade que procura investigar perseguições e mortes de pessoas. Nossa comissão continua ativa”, afirmou, realizando ainda provocação sobre a participação acadêmica no processo de justiça e repração às violações da ditadura.

Foto: Daisy Melo/ Ascom ADUA
A estudante indígena Sara Almeida, dos povos Sateré-Mawé e Miranha, destacou que é a primeira de sua família a ingressar em uma universidade federal. Cursando Pedagogia, ela afirma acreditar que a educação transforma vidas e compartilhou a situação de deslacamento da comunidade onde reside, em Manaus: “Recentemente, a nossa terra, que ficava na Avenida do Turismo, foi deslocada para outro local. A gente lutou 50 anos pela demarcação da terra e, infelizmente, fomos indenizados para outro lugar. E, infelizmente, outros povos nem têm essa oportunidade: são simplesmente expulsos, como algo descartável, e isso é muito triste. Ver a nossa história apagada como se fosse nada é desolador, e falar sobre isso é muito delicado"

Foto: Daisy Melo/ Ascom ADUA
Já o estudante Guilherme Pontes, do curso de Pedagogia, chamou atenção para a dívida histórica da sociedade brasileira com os povos indígenas. “Os povos indígenas têm o direito constitucional de ter seus direitos humanos garantidos. A partir do momento em que o Estado falha em protegê-los, está falhando com os direitos humanos que todo cidadão tem. Devemos reconhecer que a cultura que temos no Brasil também vem deles. E, ao protegê-los, estamos também protegendo a cultura, a Amazônia e tudo o que vem sendo construído há décadas”, disse, destacando a necessidade de uma postura mais comprometida de toda a sociedade.
O 1º vice-presidente da ADUA, professor José Alcimar de Oliveira, reforçou o papel do movimento sindical e de iniciativas como a roda de conversa na promoção do debate crítico, realizada em uma data simbólica: 31 de março de 2026, quando se completam 62 anos do golpe empresarial-militar. “Dificilmente uma iniciativa como essa seria promovida pela UFAM. Se fosse, seria para cumprir uma formalidade, mas ainda bem que a ADUA e o ANDES-SN existem”, afirmou.
Para o docente, ações como essa são fundamentais diante do desconhecimento histórico: “Eu vejo essa ação como fundamental diante do que têm sido, para nós, as consequências do desconhecimento da história”, ressaltando que esse apagamento atinge de forma ainda mais profunda os povos indígenas. Ele levantou a questão: “Por que não só o desconhecimento dos diversos efeitos da ditadura empresarial-militar civil continua, mas também o reconhecimento dos impactos dessa ditadura sobre os povos indígenas segue como um capítulo marginal da história?”

Foto: Daisy Melo/ Ascom ADUA
A atividade evidenciou que, apesar dos avanços organizativos do movimento indígena, como a atuação da Univaja, persistem desafios estruturais relacionados à proteção territorial, às violações de direitos e à ausência do Estado em diversas regiões. Ao mesmo tempo, reforçou a importância de iniciativas que promovam o diálogo entre universidade, movimentos sociais, sindicais e povos indígenas, apontando caminhos para uma atuação mais solidária e comprometida com a justiça social na Amazônia.
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